Maria Eugênia Arantes Gonçalves
E, mais uma vez, parece que nosso tema é o preconceito. A questão dos livros didáticos trouxe de volta à tona a velha história do preconceito lingüístico. Lembro-me desde muito pequena, das tirinhas do Chico Bento presentes em quase todos os meus livros de português, e devo dizer que não costumo cometer tantos erros quanto seria de se esperar. A razão disso é que, desde sempre, tive contato com a idéia de que falar diferente não é falar errado, e que cada ocasião aceita um tipo de linguagem distinto. Em momento algum me foi dito que artura é tão correto quanto altura, mas sim que em algumas regiões eu poderia ouvir as pessoas falando dessa maneira e que não deveria taxá-las de ignorantes por isso, que é mais uma questão cultural do que educacional.
Aprendi também que a norma culta tem sua razão de ser, ela serve para tornar a língua universal, de forma que, mesmo em um país tão grande e com tantos dialetos como o Brasil, todos consigam se compreender sem maiores problemas. A norma culta é uma espécie de padrão para que, não só num mesmo país, mais em qualquer ponto do globo, suas idéias possam atingir a qualquer interlocutor. Sendo assim, ela é mais uma maneira de unir os povos do que de confrontá-los.
Quando li pela primeira vez sobre a confusão presente nos livros didáticos, não sabia o que pensar. O fato de o livro apontar como certo algumas "inconcordâncias" causou-me uma grande dúvida. Não acredito que aquilo que vai contra o padrão estipulado (na língua) seja ENSINADO como algo correto e necessariamente aceitável, como foi afirmado sobre essas apostilas, e isso me incomodou um pouco - aliás, um tanto. Enquanto lia as tais tirinhas do Chico Bento, nunca cheguei a entender que eu estava livre para falar da maneira que quisesse simplesmente porque nem todas as situações pedem o uso sistemático da norma culta. No entanto aprendi, como já disse, que aqueles povos cuja cultura tenha adotado algum tipo de construção linguística não devem ser discriminados pois que aquilo é parte de sua identidade e de sua história. E talvez isso não esteja tão esclarecido assim nos livros didáticos das escolas públicas.
Como disse Marcos Bagno em seu livro, Preconceito Lingüístico, da mesma forma como um mapa-mundi não é o mundo, uma gramática não é a língua. Falta à população esclarecimento para aceitar essa diferença. Na minha opinião, antes de discriminarem o modo de falar de um indivíduo, as pessoas estão mais preocupadas em relacionar a fala à questão social, e o preconceito deixa de ser por considerarem erros de português uma ignorância para ser uma idéia elitista de patrões falando certo e operários falando errado (desculpe, não quis soar tão marxista). Mas se a função da língua é a comunicação, por que é continuamos nos atendo mais às trocas entre Ls E Rs do que à mesagem propriamente dita?
"Mas já sabemos que todo preconceito é fruto da ignorância..."
BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico, pag 97, cap II
"Mas quando alguém te disser tá errado ou errada
Que não vai S em cebola
E não vai S em feliz
Que o X pode ter som de Z
E o CH pode ter som de X
Acredito que errado é aquele que fala correto
E não vive o que diz..."
Zaluzejo - O Teatro Mágico