Maria Eugênia Arantes Gonçalves
Talvez a Vida seja, sim, um valor a ser defendido. Mas quem sabe o que é a vida? A cada instante, a cada circunstância, nossa visão muda. É um conceito um tanto amplo e abstrato para que tenhamos, para ele, uma definição exata. Nossas respostas são momentâneas e passageiras e, ao deixar o âmbito de nosso pensar - seja pelos lábios ou pelos dedos - já se mostram incompletas e inexatas. Então o que é que estamos defendendo? Essa guerra contra a eutanásia apoia-se num discurso bonito demais para defender o que é apenas um conjunto de reações químicas vazias e sem sentido. No entanto, estamos falando de muito mais do que um amontoado de músculos e sangue. Há que se pensar no abstrato, e naquilo que aparelhos médicos não podem detectar.
Já diz o termo, Boa Morte. Mas nossa filosofia e nossos credos fazem-no parecer paradoxal. A simples menção da palavra morte faz as pessoas estremecerem, e é realmente intrigante se nos perguntamos quando é que se passou a vê-la com essa aura obscura de castigo. A Eutanásia é encarada como uma alternativa àquelas pessoas que passam um longo tempo presas a artifícios para manterem-se vivas, ou que tem pouca - ou nenhuma - chance de recuperação e volta à consciência. Muitos países já a tornaram legal, outros a consideram um crime, e alguns poucos nem chegam a discuti-la significativamente. A cada certo período, o assunto volta à tona em algum caso extraordinário, e então todos os lugares se enchem de discursos e poesias, de frases bonitas falando do valor da Vida.
As pessoas estufam-se em discursos apaixonados e posturas nobres para mostrar a grandiosidade daquilo que se pretende apagar com um botão, tentam mostrar que não cabe a nós, meros humanos, decidir sobre o destino de outrem, e colocam o conceito Vida dentro de uma redoma isolada num pedestal intocável. É incrivelmente bonito o sentimento de esperança que alimentam, e o tom virtuoso que adotam. Mas a questão não se trata de deixar viver ou mandar matar. É algo muito mais amplo e delicado. E não vamos falar daqueles que passam quinze anos com apenas a consciência necessária para respirar. Pensemos naqueles que ainda podem se ver, que conseguem enxergar, dia-a-dia, as pessoas à sua volta definhando com eles, se doando inteiramente, que se vêem incapazes de algo maior do que um "muito obrigado" e que não conseguem ver qualquer tipo de meta para sua vida. Aliás, não conseguem ver qualquer tipo de Vida.
Já disse Fernando Pessoa, e muito sabiamente, que o verdadeiro cadáver é o que deixou de viver. Não se trata aqui da nobreza de se doar a quem se ama, se trata do tormento de quem recebe, e recebe, e recebe e começa a se ver cada vez menor. Se trata da angústia da impotência. Se trata do sentimento de objeto e de incômodo. Se trata de algo muito maior do que tudo isso, do que a relação com o outro. É algo com o próprio eu, algo interno demais para que qualquer um imagine ou conheça a não ser que o sinta verdadeiramente. Tente projetar o turbilhão de pensamentos se chocando e inchando na mente do enfermo, o tormento e a angústia que o apertam no peito enquanto vê a Vida das pessoas passarem sem encontrar uma vida para si.
Superações há. Para quem as busca. Não se pode tentar mudar a todos e nem tentar amarrar alguém querido à uma câmara de tortura por conforto próprio. É uma questão de conformismo, de deixar ir. Aceitar... Ninguém sabe o que se passa dentro de cada um e, algumas vezes, a pessoa apenas não quer se salvar. É algo como se corroer por dentro até não sobrar nada, apenas um grande vazio. Mas ainda assim, vêm as pessoas cheias de orgulho defender a família, os entes queridos et coetera, dizendo que não há direito e que não se tem motivo para tanto. Então, defendo agora, não o amor da família que perderá alguém, mas o sentimento de quem já não suporta, os desesperos e tristezas que ultrapassam qualquer barreira de nobreza, e que a virtude deixa o seu caminho para defender. Talvez falte-nos a lembrança daquela lição de crianças, de se por no lugar do outro. Talvez falte-nos entender, que o pior castigo não é a morte, e que a dor maior reside em viver.
Eu li apenas o título e pensei "este texto tem cara de Marô" ...
ResponderExcluir