sábado, outubro 01, 2011

DeFormação Básica

Maria Eugênia Arantes Gonçalves

O último Seminário Nacional de Educação de Surdos trouxe certo choque ao propor a educação bilíngue nas escolas. O modelo apresentado foi o vigente na Espanha já há algumas décadas, no entanto, não teve boa aceitação no Brasil. Debates e palestras trouxeram a idéia de que unir os alunos surdo aos não-surdos é nada mais do que inclusão social, é inserir os deficientes auditivos num grupo desde o início de suas vidas. E há realmente surpresa e desentendimento quanto à pouca aprovação brasileira à idéia.
Já não basta o nível de preconceito presente no país e a discrepância entre as classes sociais, e pretendem impedir a participação de pessoas que culpa nenhuma tem sobre seu estado físico. Ainda não consigo ver uma razão aceitável ou um motivo plausível. Mas pensando educação, já não se pode não lembrar da péssima condição dos professores, tão polêmica nas últimas semanas. E então, passo para um outro plano. As pessoas que frequentam a universidade pretendendo lecionar, tem pouquíssimo preparo para as "peculiaridades" dos alunos, mesmo as matérias pedagógicas são muito mais voltadas à parte técnica do ensino, sendo os cursos de libra e braille, por exemplo, opcionais, contados apenas nas horas extras exigidas para que se tenha um diploma. Esse, que se preparam para formar cidadãos e profissionais, que deveriam ser os construtores de pontes entre as pessoas, não tem pontes para eles mesmos, e estão mal preparados para receber aqueles alunos que chamamos especiais.
Aqui voltamos a questão problemática dos professores. O governo se recusa mesmo um salário justo à tal classe, e talvez isso explique a falta de apoio à idéia da inclusão de deficientes em escolas "normais". Quem sabe preparar esses professores e dar-lhes orientações especiais para receber novos alunos esteja também fora do orçamento. Pois é este o Brasil. O país onde se tem falado em polilinguístas para a Copa 2014 ou as Olímpiadas 2016, mas que nega às crianças deficientes físicas o desenvolvimento de sua única forma de comunicação. Incluir surdos no ensino comum é não apenas um dever - pois que vivemos sob uma Constituição que prega igualdade na garantia de direitos e sob os tais "direitos humanos", reafirmando-a por todo o globo - é um ato de justiça, solidariedade e de combate ao preconceito.
Chega de tentar classificar as pessoas e englobá-las em esferas específicas e incomunicáveis entre si. Além de tudo, a união de formas diferentes de educação será um aprendizado enorme, muito mais para os alunos do que para os professores. Será experiência de cooperação e compreensão, desde muito novos, crianças e jovens conviverão com realidades e necessidades diferentes das suas, e é esse o real espírito que deveria reinar no ambiente escolar. Ali é onde as pessoas passam seus primeiros quase 20 anos de vida, é o local onde deveriam ser colocados frente a frente com aquilo que enfrentarão em suas vidas, situações de escolha, conflitos ideológicos, preferências diversas. Mas é o local onde tentam ensiná-las a ser iguais. Não importa que leve tempo e que resultados práticos só se tornem visíveis dentro de anos. Como disse a professora Nuria Silvestre, "Não há caminho se não se começa a andar". Mas o Brasil está na direção oposta. Está amarrando as pernas.

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