Nicole Garcia
Preconceito Linguístico e os Níveis de Linguagem
O início da formação do português brasileiro se deu a partir do encontro do português europeu, do colonizador, com povos de diferentes culturas, principalmente africanos e indígenas. Com o elevado número de escravos africanos e a necessidade de intercomunicação, ocorreu um processo normal em toda língua, o de apropriar-se dos termos necessários a sua expressividade, quando o contexto discursivo exigir.
Dentre as palavras que incorporaram-se ao léxico do português brasileiro por influência das línguas africanas, por exemplo, pode-se dizer que fazem parte do vocabulário que refere-se à religião, culinária, modo de vida, danças, vocabulário familiar, entre outras.
Assim como a humanidade, a língua também evolui com o passar do tempo e através do contato entre os falantes. Existem diversos fatores que podem influenciar as variações linguísticas existentes, entre eles podem-se citar: variação histórica: utilização de palavras e expressões que caíram em desuso com o passar do tempo; variação geográfica: diferenças linguísticas observadas entre pessoas de regiões distintas, onde se fala a mesma língua; variação social: capacidade linguística do falante relacionada ao meio em que vive, classe social, faixa etária, sexo e grau de escolaridade. Incluem-se nessa variação, os jargões profissionais e as gírias; variação estilística: linguagem adequada a situação em que se encontra o indivíduo.
O desconhecimento dos fatores que influenciam a língua e que produzem essas variações, colabora para com que as pessoas que não dominam a língua "padrão" sejam discriminadas, gerando o chamado preconceito linguístico, que é tão grave quanto qualquer outro tipo de preconceito. Conforme BAGNO(2007), "preconceito linguístico é a atitude que consiste em discriminar uma pessoa devido ao seu modo de falar".
A língua se apresenta em duas modalidades – a escrita e a falada – e ambas possuem semelhanças e diferenças, tanto uma como a outra pode ser mais ou menos formal. O importante, e aí está o papel da escola, é orientar para que o aluno saiba adequá-las ao contexto, ou seja, a criança não entra na escola para aprender a falar, como muitos pensam, ela precisa e tem o direito, de ter acesso às variedades prestigiadas, mas sem jamais, sofrer qualquer tipo de estigmatização.
A língua é viva e está a serviço do usuário. É influenciada pela circunstância em que ele está inserido e reflete os hábitos, os costumes daquela comunidade. Assim, conhecendo esses diferentes níveis de língua e os grupos a que pertencem, devemos vencer o preconceito linguístico e não estigmatizar as formas diferentes daquelas com que convivemos nos bancos escolares. Não existe linguagem mais ou menos correta, nem língua mais ou menos importante. O que deve ser considerado é a visão dialógica da língua, pois, através dela, o homem interage com seu semelhante constituindo-o e constituindo-se.
Além disso, torna-se necessário saber que (ORLANDI, 1993) todo falante e todo ouvinte ocupa um lugar na sociedade e isso faz parte da significação e que o sujeito não se apropria da linguagem num movimento individual, a forma dessa apropriação é social.
"Se queremos construir uma sociedade tolerante, que valorize a diversidade, uma sociedade em que as diferenças de sexo, de cor de pele, de opção religiosa, de idade, de condições físicas, de orientação sexual não sejam usadas como fator de discriminação e perseguição, temos que exigir também que as diferenças nos comportamentos linguísticos sejam respeitadas e valorizadas."
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